Rouge à Lèvres

Arranjei-me para me levares a dançar. Para me encantares com as tuas palavras doces que trauteavam melodias ao luar. Pintei os lábios de vermelho, como tu dizias gostar, para que a noite acabasse com as marcas do nosso amor espalhadas por todo o teu corpo. Para que me dissesses que era a mais bonita do salão, a única que querias rodopiar ao som do piano que ecoava ao fundo. Escolhi o combinado azul por achar que irias reparar nele. Mas a tua pressa não deixava. Havia fogo no teu olhar e em tuas mãos quando me arrancavas a roupa. Havia o desespero de uma fome que eu não conhecia até essa noite. E havia o silêncio. Lembro-me perfeitamente de te sentir longe mesmo estando tu ao meu lado. Eu não era mais do que uns lábios vermelhos que havias levado a dançar para te fazer companhia nessa noite.

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Lisboa Gaiata

Se o vento o amor apregoa,
Nesse bairro lá de Lisboa,
Rodam as saias sem parar
Das varinas junto ao mar.

Sobre as lágrimas derramadas
De quem o mar tudo levou,
Ficaram lá sete colinas,
De um tempo que passou.

Lisboa, bela cidade,
Por ela cantam o amor,
Num beijo terno de saudade;
De quem por ela tudo deixou.

Soam as guitarras pela calçada,
Num Fado de prato e dor,
Alheio à luz que ficou,
Abraço de quem se enamorou.

Sobre o Tejo as caravelas,
Memórias de quem já partiu.
Em terra a coragem,
De uma cidade que resistiu.

As esquinas suspiram seu nome,
As ruas dançam seu esplendor,
Para que a manhã nasça gaiata,
Abençoada por seu calor.

Música e Letra: Adriana Couto

O Voo da Fénix

Todos os teus dias começam na incerteza do que poderá acontecer. Sabes o que queres de ti e para ti mas vives presa a um relógio que te faz não poder levantar voo sempre que o desejas. Olhas para o lado. Tomas um comprimido e depois outro e ficas a pensar, sentada na cama, se o dia te irá fazer viver de forma diferente para te esqueceres. Esqueceres de ti, da vida que escreveram para ti, do medo que te procura. O teu telefone toca e os teus serviços de ouvinte dedicada começam. Não te importas, até gostas porque te lembram de que os problemas do mundo não se concentraram todos em ti mas que foram distribuídos, mesmo que não tendo sido de forma justa. Olhas-te ao espelho e dás por ti a pensar: “porquê eu?” e como o despertar de uma guerreira, respiras fundo e afastas a tristeza para o canto mais escuro do teu quarto. Será sempre de admirar a força que transpiras em forma de sorriso e gargalhadas que preenchem o ar de quem te rodeia, a música que vais buscar aos silêncios das nossas vidas e que nos fazem dançar a teu comando. Podem tentar matar-te as vezes que quiserem mas tu irás sempre reerguer-te das cinzas para nos fazer lembrar que há uma esperança que nunca tem fim. Os teus dias existem para que nos ensines a amar e que num mundo que nos diz “não”, nós temos sempre forma de o contornar. És apologista das pequenas loucuras porque há loucuras que valem pela vida. Deixas que o sol entre no teu espírito para que nos possas iluminar quando mais precisamos de um ombro amigo ou de alguém que esteja simplesmente ao nosso lado. Às vezes gostava de poder fazer mais por ti. De te mostrar que há quem realmente se importe e que não te vai abandonar. De te pedir que olhes para trás e percebas tudo aquilo que já caminhaste, que ultrapassaste, que caíste para te levantares sempre e continuares a andar pronta para lutar contra as tormentas que o teu mar ainda te possa proporcionar. Deixa que os dias em que te calaste com vontade de gritar sejam a melodia de um piano que escreveu o que um dia te foi na alma. Que os dias em que nos sorriste com vontade de chorar por dentro sejam a marca que deixaste nas nossas vidas, a imagem da pequenita que nos tocou como ave de rapina que ficou para nos defender com unhas e dentes do caos das nossas vidas. Não há nada nem ninguém que possa ditar regras para a tua vida. Traça o teu caminho. Procura-te, conhece-te e perde-te como se não houvesse um amanhã.

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Noites Claras

Adoro a forma como o cheiro a tabaco se entranha na tua barba de alguns dias. Como o calor das tuas mãos aquece o meu corpo na ausência de luz. Como os teus olhos negros me olham com um desejo silencioso perante a multidão que nos rodeia. Como me abraças enquanto dormimos, como me contas o teu dia enquanto o dia vai nascendo lá fora. Afasta-te de mim enquanto ainda não dói.

Até já, Nana.

Todos nós devíamos ter noção que a vida é um ciclo. Nascemos, crescemos, morremos. Infelizmente não é tão fácil de falarmos desse ciclo quando o de alguém que nos é próximo termina. Infelizmente ainda nenhum de nós teve a capacidade de descobrir como alcançar a vida eterna. Também não sei bem se algum de nós o iria querer fazer.
Como é que nos despedimos de alguém que se ama? Como é que nos mentalizamos que não voltamos mais a poder estar com essa pessoa? Um dia está connosco: brincamos, sorrimos, abraçamos ou beijamos. No dia seguinte estamos sujeitos a um telefonema que põe termo a tudo. Mas a vida é assim, não é?

Deixem-me falar-vos da pessoa incrível que hoje partiu. E não digo isto só porque era minha avó. Não. Qualquer pessoa que se tenha cruzado com ela, tenha saído satisfeita da conversa ou não, terá que lhe dar o devido valor: não havia senhora como ela. Nunca conheci pessoa mais corajosa, mais brava ou amorosa, daquelas senhoras que transpira poder quando passa. Daquelas senhoras que sabemos bem, desde logo, serem donas do seu nariz: independentes, capazes de tudo, aventureiras.

Estamos a falar de uma senhora que viveu os seus 89 anos em pleno. Depois de mais de quarenta anos como professora, a servir a sua comunidade fosse na escola ou na sua junta de freguesia, de três filhos criados praticamente sozinha, falo-vos de alguém sem medo de se enfiar num avião. Todas as histórias sobre a Rússia, a Tunísia ou a Venezuela contadas até à exaustão. E nós fascinados a ouvi-la. Uma senhora que adorava passear, que adorava doces e que por causa disso me fazia chatear muito com ela! Que se gabava dos seus dotes de costura e das roupinhas que fazia para os filhos quando eram pequenos. Que aos 89 anos continuava a dar raspanetes aos alunos da minha mãe por estes não serem capazes de decorar a tabuada que ela ainda sabia de cor. Há tantas histórias engraçadas vividas com ela!

Muitos de vós deveis conhece-la apenas no seu papel de educadora. De dama de ferro. Eu tive o prazer de a ter como avó. Tive o prazer de a ouvir perguntar-me pelos meus namorados e de quando lhe dizia que não tinha, ouvi-la com todo a felicidade: “ainda bem, não precisas de um homem para nada.” Ao qual tinha que desde logo discordar e arranjava logo uma guerra lá por casa. Falamos de uma senhora que se orgulhava de­ todos os netos e ainda mais dos seus três bisnetos. Uma senhora que quando eu arranjei um Furão para animal de estimação, para desespero da minha mãe, foi a única que me defendeu porque ela havia já tido meia dúzia deles. A avó que quando me via zangada com os meus pais, se punha à minha frente e dizia: “a tua mãe fala muito mas era igual com a tua idade”. Foi assim que demos o nosso último abraço. Daqueles abraços que vêm na altura certa. Fico muito triste de pensar que não a abracei tanto quanto queria. Em geral nós não abraçamos muito as pessoas de quem gostamos. E não há justificação possível para tal. Façam-no. Não percam essas oportunidades.

Foi muito difícil acompanhar a minha avó na sua maior luta. Nenhuma doença é boa mas o Alzheimer para ela, foi das piores coisas que lhe poderia ter acontecido. É ver uma pessoa cheia de energia, de recordações, de histórias, ir desaparecendo à nossa frente e nós sem conseguir ajudar. Acho que todos os que a conheceram a vão continuar a recordar como mulher fantástica que ela era. Daquelas pessoas com quem pouco nos cruzamos nas nossas vidas mas que ficam presentes para sempre, estejam cá fisicamente ou não. E é assim que para sempre me vou recordar dela, da minha avó, a minha velhota, mesmo que depois disto já não a ouça dizer: “Velhos são os trapos!”.

Obrigada por tudo, Nana.

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