A Sombra à sombra

A Morte espreita a toda a hora. Pensa que eu não a reconheço quando entro na sala e me sento no sofá à sua beira. Sinto-a a apoderar-se cada vez mais do seu frágil corpo, aos bocadinhos, como quem aprecia uma boa sobremesa, a saborear com uma extrema delicadeza cada pormenor de si. E eu, a assistir, impune, a tudo. Como uma inválida a vê-la desfalecer ao meu lado enquanto lhe conto o que fiz durante a semana, histórias, por vezes, repetidas já pela décima vez mas sempre como se fosse a primeira vez para si. Sempre a conheci como uma mulher de ferro. Poderosa, autoritária. Sempre a tive como exemplo a seguir pela dedicação ao trabalho, ao seu povo que tanto a acarinha, às homenagens que lhe fazem um pouco por todo o lado. Mulher aventureira que partiu, depois de velha, para Marrocos, Rússia, Venezuela. E ao chamar-lhe de velha, a minha velhota, sorrio porque imagino mais uma vez a sua reacção ao ouvir-me chamar-lhe isto: “Velhos são os trapos!”. Depois de tantos anos afastadas, começa a ser difícil, no primeiro ano que a tenho finalmente comigo quase a tempo inteiro, ter que lidar com a sua deterioração, de braços cruzados, a não reagir às minhas palavras, a trocar o meu nome, a não reconhecer a minha voz. Isto dói.

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