A Diva

O nosso caminho é definido pelos sonhos. Nunca estive tão certa disso. Quem vamos um dia ser, nasce com o sonho de querer ser alguém que nunca seremos, normalmente por elevarmos esse ser a um patamar demasiado alto para na realidade se concretizar. Uns contracenam com as tipas mais giras do cinema, outras desfilam nas melhores passerelles do mundo exibindo uma estrutura óssea que nos parece perfeita. Depois há aqueles que têm um vozeirão do caraças e que ainda por cima têm pinta. Vendem bem. Têm milhões de fãs e ainda por cima conseguem ser giros que se fartam, tudo num pacote que nos parece mais do que completo.  Maldita inveja que nos leva a pensar que nunca seremos tão bons quanto eles. Maldita estupidez a nossa que nos prende a um pensamento idiota sem um pingo de verdade que nos cola ao chão sem nos deixar experimentar as asas novas que acabámos de ganhar. Em miúda não consegui escapar a essas ambições mas com o meu pequenino orgulho nunca deixei que ninguém me dissesse que eu nunca iria ser quem eu queria ser. Ainda vou dar umas valentes cabeçadas à conta disso, da minha teimosia, mas a verdade é que até agora ainda não tive grandes razões de queixa. Nunca quis ser actriz ou cantora. Gostava mais das bailarinas, pareciam ter roupa mais gira mas a minha mãe nunca me deixou ir para o Ballet porque dizia que eu já não tinha idade para isso. Cresci e o meu pai arranjou a sua primeira máquina fotográfica digital. Não demorou muito até que a comecei a levar às escondidas para a escola ou a pedi-la para as minhas tão raras visitas de estudo. Também não demorou muito até a deixar cair em pleno Cabo Carvoeiro onde dei cabo da lente. Daí até à minha própria máquina fotográfica foi um saltinho. Daí até ao gosto imenso por fotografia não tardou nada. Mas passando toda esta parte que não interessa a ninguém, quando comecei realmente a interessar-me por fotografia, ainda era eu uma teenager, conheci o trabalho de uma fotógrafa da revista Blitz. Houve algo que me puxou para aquelas fotografias, na sua maioria de concertos que me fazia querer fazer o mesmo. E depois lá a vi, pela primeira vez, num concerto dos My Chemical Romance no Coliseu de Lisboa. Passaram uns quantos anos desde esse dia até que me deram a oportunidade de fotografar os meus primeiros concertos. Diabo na Cruz, Deolinda, Pedro Abrunhosa, foram os primeiros nomes nacionais. Natiruts, a primeira banda internacional. Quando dei por mim, estava a fotografar todo o tipo de eventos culturais dos arredores. The Hives, Richie Campbell, Armandinho e mais uns quantos nomes nomes fazem já parte de todo um reportório, meio esquecido, meio perdido no meu disco externo, que ainda me parece tão insignificante quando me atrevo a comparar àquela diva da fotografia nacional. Em Junho tive-a bem à minha frente. Ela armada de máquina em punho, a trabalhar, e eu na primeira fila do concerto de Yann Tiersen a invejá-la e a remoer-me toda para ir falar com ela. É óbvio que depois disso não a voltei a ver. Mais uma vez. Mas os sonhos voltaram a ficar mais despertos e as ambições mais apuradas. O caminho ficou definido. Agora é segui-lo.

 

(E se ela lesse isto?)

 

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