O Livro

Há quatro anos, uma pessoa que ainda mal conhecia, trouxe-me um presente de um velho alfarrabista da baixa do Porto. Não houve motivo aparente para aquele presente. “Toma. Vais gostar.”, disse-me. Era uma compilação de textos, um livro em perfeitas condições, escrito por alguém de quem eu nunca ouvira falar. O livro chegou na hora exacta. De quê? Nem eu sei. Havia demasiados demónios nessa altura. Continuam por cá mas nessa altura estavam mais acordados. Sabes a sensação de passar por uma multidão e não ser visto? Era eu, o vulto, que passeava entre desconhecidos e conhecidos, que por mais acompanhada que estivesse, estava sempre sozinha. E depois houve o livro. A minha mãe sempre achou que eu desperdiçava os livros que me davam ou comprava, devido à velocidade com que os devorava. Isso não aconteceu com aquele livro. A cada frase, texto lido, uma ferida antiga abria. E eu parava de ler. Ganhava forças e retomava o doloroso processo. Lia e relia vezes sem conta antes de passar para o próximo texto, apoiada por um pequeno lápis que sublinhava a causa das novas feridas. Sempre odiei pessoas que tentam ler outras pessoas. Que se acham no direito de poder dizer: “sei o que te vai na cabeça, quem tu és”. Errado. Nunca sabem de nada. Mas depois chegou o livro que com a graciosidade do vento, tombou todas as muralhas construídas ao longo de uma vida. E não estás mesmo a imaginar a espessura dessas muralhas. Sempre tive uma concha a proteger-me. Sempre precisei disso. Sempre fui a miúda do pé atrás, que queria arriscar mas que antes de fazer fosse o que fosse já sabia o que ia dar errado. Não devia ter ignorado o poder que um livro pode ter. Os efeitos drásticos que pode ter na nossa alma. Senti-me nua. Senti-me uma criança desprotegida a quem haviam retirado tudo. Tinha um escritor desconhecido a ler-me a alma que eu passara anos a esconder. Fiquei sem chão. As paredes desapareceram e nessa noite e nas outras que se seguiram chorei. Chorei com o livro agarrado ao peito. Dei asas à loucura contida. Escrevi horas a fio, dei inconscientes passeios nocturnos que me roubavam a sanidade em vez de ma devolverem. O livro deu-me um abrigo que eu nunca tive. Pesquisei, consumi tudo o que encontrava daquele desconhecido autor, com as poucas economias que ia conseguindo juntar. Despedi-me da pessoa mais parecida comigo que alguma vez encontrara e que amei desalmadamente, com um outro livro do mesmo criador e uma nota: “Toma. Vais gostar”. É a única coisa que passados estes anos, ainda nos mantém próximos. Nunca me escreveram ou escreveram sobre mim. Pelo menos que eu saiba. E depois chegou o livro e eu achei que havia sido escrito para mim e sobre mim. Foi o maior tesouro que alguma vez me foi dado. O meu Estranho achou o mesmo sobre ele. Quem imaginara: duas almas solitárias que se julgavam inalcançáveis e do nada são assim manipuladas por um completo desconhecido. É bom saber que não estou realmente só por aqui.

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