O difícil é esquecer

Dizem que é fácil começar a gostar de alguém, o difícil é acertar na pessoa certa. Gostava de te dizer que ele não era a pessoa certa para ti mas acho que é mais do que mentira se o disser. Vocês eram as peças de puzzle que encaixavam na perfeição, um no outro. Notava-se ao longe como vocês eram especiais. Desde o início, quando vocês se ignoravam e faziam de conta que não havia atracção um pelo outro. Toda a gente o percebia.Sentia inveja quando vos via juntos e lembro-me de pensar: “caramba, isto vai mesmo para casamento”. É engraçado como o destino brinca com as pessoas e dá voltas que ninguém prevê. Chovia imenso quando vieste ter comigo. Acho que nunca te tinha visto tão desfeita. Aliás, lembro-me apenas de uma vez. Tinhas começado a gostar dele mas havia outra pessoa entre a vossa história. Que cliché. Arrepender-se e correr para ti, seria também mais um. Mas desta vez era diferente. “Acabei. Acabei tudo.” Não soubeste explicar o motivo. Aliás, afirmaste que não havia motivo mas mais tarde mudaste a história: “Assim como sabes o exacto momento em que começas a gostar de alguém, também percebes o momento em que o deves deixar. Quando já não há nada de saudável na relação e o amor que vos unia já não é suficiente para vos manter juntos.” Desapareceste durante algum tempo. Acho que nunca tinha visto alguém roubar a alma a outra pessoa. Mas foi o que ele fez contigo. Ficou um vazio em ti. Voltei a ver-te no final do Verão e lembro-me de pensar que aquela, já  não eras tu. “Este foi o pior Verão da minha vida. Ele estava lá, por todo o lado”. Tentei perceber o porquê de não tentares uma aproximação. Disseste-me que iriam voltar ao mesmo. Que quando se apercebessem, estariam na rotina que vos levou a acabar, as mesmas discussões seriam criadas e tudo seria mais um ciclo vicioso. É engraçado. Como se pode amar tanto uma pessoa ao ponto de se ter coragem de a mandar embora? Tentaste manter a tua vida como antes era mas agora, excluindo cada pedaço dele. “Não sou forte o suficiente. Julguei que sim mas não consigo. Esta cidade é demasiado pequena para continuarmos a coexistir.” E de um dia para o outro, voltaste a desaparecer. Deixaste tudo para trás de uma forma tão literal como nunca julguei que serias capaz de o fazer.  Visitei-te algumas vezes na tua nova cidade. Tinhas conhecido alguém. FIquei radiante com a notícia. Precisavas desse alguém para esqueceres a sombra deixada para trás. “Gosto mesmo dele, sabes.” No entanto, sempre que podias, tentavas sondar-me quanto ao teu passado. Lembro-me do dia em que te dei a notícia que ele já estava em outra. O vazio voltou a encher o teu olhar. “Eu sei. Desconfiava que por esta altura assim fosse.” Hoje voltaste à tua cidade e por coincidência ele voltou contigo. Pudesse eu adivinhar e tinha-te trancado em minha casa. Acho que tentaste disfarçar o máximo que conseguiste. Mas nada disse quando vi as tuas lágrimas a cairem enquanto caminhávamos em silêncio pela cidade fora. Como é possível alguém ter tanto poder sobre outra pessoa ao ponto de se tornar a faca mais pontiaguda da sua vida, aquela que abre feridas sempre que lhe bem apetecer? E tudo o que ficou na memória, foi o sorriso que ele trazia na cara. No entanto, amanhã ela já não estará cá para o voltar a ver.

Esquecer

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