Sobre a vida das sereias

Nunca a memória foi tão cruel comigo. Vivo em contínuo desespero. A solidão é compacta, não dá espaço para mais ninguém, um mínimo conforto, uma folga. Tu eras o segredo que abria a minha alma e invadia o meu corpo. Eu sei como são embaraçantes e pretensiosas estas frases, mas não tenho outras com as quais me possa confessar. Minha adorada que eu não aguento mais. Nem quero sequer saber por quanto tempo. Já não sei como te tratar, como me tratar, de que tratar. Escrevi o livro até ao final da segunda parte. Não tenho coragem de o reler, menos ainda de te o enviar. Escrevi na cabeça a terceira parte. Falta-me a coragem para recomeçar, sempre recomeçar e não sair do começo. Podia dizer-te: És de uma crueldade que desconhecia possível. Mas prefiro não te o dizer. Tenho medo de te ferir sem teres culpa de nada. Tu não tens culpa de nada disto. Se alguém tem culpa sou eu. A crueldade não vem de ti, mas da falta de ti. E deus observa como tudo se resolve num instante de nada e não se intromete. Este pensamento leva-me para perto da insensatez, de qualquer coisa incontrolável. Só sei que sem ti em mim não encontro o mais ténue intento que me permita continuar. A vida não precisa de ter sentido, uma história sim. Não te posso dizer do que preciso urgentemente. Não sei o que é, o que seria. Seria necessário regressar ao começo e caminhar por outro caminho e não há forças para isso. Perdoa-me só mais esta vez.

Pedro P.

Stranger

Incêndio das Ruas

“Inclinas-te, silencioso, para o interior do sonho que se enche de imagens ensanguentadas.
As casas onde moraste foram demolidas. Os rostos apagaram-se da memória.
Se olhares a paisagem, cegarás – como cegaram as aves em pleno voo.

A tua ausência ainda pernoita nos escombros de uma fotografia.
Desertos. Fungos, bolores a nascerem nas pálpebras. Aço torcido, ventos.
Ruas em que te segredei:
Leva-me daqui, leva-me para longe desta árvore seca. Para longe desta parede onde escorrem fios de sol…

Mas tu mal entendias a língua em que te segredava.
Vias, apenas, a convulsão de um rosto que se apagava na semiobscuridade da manhã.

Cidade esboroada. Lisboa: Corpos que esperam, jardins onde se cruzam e desaparecem. Ruas, e o rio ao fundo.
Nada mais em redor daquele que caminha ao mesmo tempo que a sua imagem. Ambos destruídos.

Na penumbra do quarto ouvem-se as vozes dos mortos, e dos corpos que se amam.
Mas é inútil lembrares-te dos rostos que tinham ou têm – porque a noite desceu voraz, pesada, eterna, sobre a tua ausência.
Quem terá vivido naquele quarto?
Caído no chão do corredor, um papel escrito – talvez um recado.
Mais alguns passos em direcção a ti, corto os pulsos.
Peço-te:
Protege esta cabeça que se ilumina. Deixa escorrer o sangue sobre os corpos que se amam…

Adormeceste com as mãos no limite da pele, e a adolescência passou enquanto te olhei dormir.
Sobre a mesa de cabeceira, em contraluz, esquecemos o frasco onde tínhamos aprisionado o navio da alma.
Ergo-me de ti e sussurro:
Tira-me do incêndio das ruas. Leva-me no abismo do teu sono, esconde-me na ferrugem nocturna do rio…

E pus-me a pensar que muito tempo depois de nós permanecerá, lá fora, o surdo marulhar da cidade – e este calor que me sobe às mãos, queimando-as, como se ainda as olhasses.”

Al Berto em Dispersos

Silêncio das Ruas

No silêncio dos Jardins

Se um dia regressares, a terra estremecerá na memória de tua ausência. E a água formará um vasto oceano no outro lado do teu olhar.
Regressarás, talvez, quando o ar se tornar rubro em redor do meu sono – e o lume das horas, a pouco e pouco, saciar a boca que clama pelo teu nome.
Encontrar-nos-emos nas imagens deste jardim de afectos e de ódios. Porque os jardins são labirínticas arquitecturas mentais, onde podemos resguardar os corpos de qualquer voragem do tempo.
Por isso, enquanto não regressas, construo jardins de areia e cinza, jardins de água e fogo, jardins de répteis e de ervas aromáticas, jardins de minerais e de cassiopeias – mas todos abandono à invasão do tempo e da melancolia.
Mas se um dia regressares, passeia-te por dentro do meu corpo. Descobrirás o segredo deste jardim interior – cuja obscuridade e penumbras guardaram intacto o nocturno coração.

Al Berto

No Silêncio dos Jardins

*

e tu sussurras:
– não, não afastes a boca da minha orelha.
derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.

e eu digo:
– as tuas mãos queimam-me a fala.

tu sorris, dizes:
– vem , sem medo, pela aridez do meu corpo.

no fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem. é tempo de ta devolver. é tempo de te reconheceres nela.

Al Berto

A Chaga

A cidade está mais deserta do que nunca e tu estás por todo o lado. Em cada lugar por onde passo, em cada divisão da minha casa, em cada rosto desconhecido que cruza com o meu corpo frágil. Voltar é enfrentar a realidade e cada vez que o faço, morre um pouco mais de mim. Deste significado a uma vida sem importância. Deste cor a um quadro que de tão abstracto mal se entendia. Deste sentido ao que julgava perdido e de tão certo te ter, fiquei cega. Sinto a tua falta todos os dias e dava tudo para voltar à sala de cinema abandonada onde uma noite me procuraste.

Eu estava tão perto de ti que sinto frio ao pé dos outros.” 
Paul ÉLUARD

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