Fotografias de um passado tão presente

Fotografias. Tudo o que me resta de ti. Por todo o lado. Por toda a casa. Nas gavetas fechadas. Nas paredes. Pelo chão.  Para me relembrar que foste a loucura da minha existência e que te perdi por um capricho que hoje já nem lembro. Uma fotografia pode dizer o melhor e o pior de alguém. É impossível fingirmos um sorriso. Um olhar. A felicidade inatingível na nossa realidade. Uma fotografia tortura-nos. Memórias de um tempo que queremos esquecer e relembrar ao mesmo tempo. O despertar do meu dia sem ti a meu lado mas contigo na minha parede. A sirene do nosso coração a dizer: és o meu passado. Quero-te mais do que no meu álbum de recordações. Dois anos não são nada. Há muito a viver. Há muito a descobrir. Cidades a conhecer. Ruas para percorrer. Camas por desfazer. Onde estás tu para que te encontre?

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Desabafos nocturnos

Lisboa deixa-me tão triste. De tanta vida haver nesta cidade, não existe vida alguma. Ninguém se conhece. Ninguém pára. Ninguém repara. Sou eu, parada na rua, de máquina em punho, a olhar os pormenores desta cidade triste que de tanto ter, tanto se perde. Estou triste. Uma tristeza que me faz querer voltar, perdoar, esquecer. Fugir, principalmente fugir. De tanto querer, nada tenho e segundo os outros, tenho tudo. Faz algum sentido? Já nem lágrimas tenho.

Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.
(…)

Helder Moura Pereira in “Mútuo Consentimento

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A Chaga

A cidade está mais deserta do que nunca e tu estás por todo o lado. Em cada lugar por onde passo, em cada divisão da minha casa, em cada rosto desconhecido que cruza com o meu corpo frágil. Voltar é enfrentar a realidade e cada vez que o faço, morre um pouco mais de mim. Deste significado a uma vida sem importância. Deste cor a um quadro que de tão abstracto mal se entendia. Deste sentido ao que julgava perdido e de tão certo te ter, fiquei cega. Sinto a tua falta todos os dias e dava tudo para voltar à sala de cinema abandonada onde uma noite me procuraste.

Eu estava tão perto de ti que sinto frio ao pé dos outros.” 
Paul ÉLUARD

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Memórias de ti deixo-as por cá

Queres que te diga mais o quê? Que te amo? Eu amo-te! Amo-te até às entranhas do meu ser, amo-te tanto que te chego a odiar. Estás satisfeito agora? Claro que não. Jamais ficarás satisfeito. Muito menos saciado de palavras, de jogos que ganhas em segundos, de momentos que sabes ter na mão. E depois ergues-te perante mim com esse olhar de superioridade de quem tem tudo controlado mas corres a refugiar-te nas tuas próprias palavras que não ousas mostrar a alma alguma. Sabes que te menti? Tenho a mala feita.

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Refúgio da alma

Perdi a vontade de escrever. De escrever sobre ti, de escrever em geral. Já não é a primeira vez e provavelmente não será a última. As portas fecharam-se. “Já passaste por isto”, dirias. Sabes bem que nunca me calo mas teme por mim quando eu deixar de escrever. Pouca gente percebe a importância da escrita na vida de algumas pessoas. Imagina o acto de passar para um papel algumas palavras como se fosse uma espécie de confessionário. Um filtro que te livra das impurezas da tua alma, que afasta demónios que te vão consumindo em silêncio. Há coisas que uma boca não consegue dizer. Já devias saber, tu melhor que ninguém.

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O Livro

Há quatro anos, uma pessoa que ainda mal conhecia, trouxe-me um presente de um velho alfarrabista da baixa do Porto. Não houve motivo aparente para aquele presente. “Toma. Vais gostar.”, disse-me. Era uma compilação de textos, um livro em perfeitas condições, escrito por alguém de quem eu nunca ouvira falar. O livro chegou na hora exacta. De quê? Nem eu sei. Havia demasiados demónios nessa altura. Continuam por cá mas nessa altura estavam mais acordados. Sabes a sensação de passar por uma multidão e não ser visto? Era eu, o vulto, que passeava entre desconhecidos e conhecidos, que por mais acompanhada que estivesse, estava sempre sozinha. E depois houve o livro. A minha mãe sempre achou que eu desperdiçava os livros que me davam ou comprava, devido à velocidade com que os devorava. Isso não aconteceu com aquele livro. A cada frase, texto lido, uma ferida antiga abria. E eu parava de ler. Ganhava forças e retomava o doloroso processo. Lia e relia vezes sem conta antes de passar para o próximo texto, apoiada por um pequeno lápis que sublinhava a causa das novas feridas. Sempre odiei pessoas que tentam ler outras pessoas. Que se acham no direito de poder dizer: “sei o que te vai na cabeça, quem tu és”. Errado. Nunca sabem de nada. Mas depois chegou o livro que com a graciosidade do vento, tombou todas as muralhas construídas ao longo de uma vida. E não estás mesmo a imaginar a espessura dessas muralhas. Sempre tive uma concha a proteger-me. Sempre precisei disso. Sempre fui a miúda do pé atrás, que queria arriscar mas que antes de fazer fosse o que fosse já sabia o que ia dar errado. Não devia ter ignorado o poder que um livro pode ter. Os efeitos drásticos que pode ter na nossa alma. Senti-me nua. Senti-me uma criança desprotegida a quem haviam retirado tudo. Tinha um escritor desconhecido a ler-me a alma que eu passara anos a esconder. Fiquei sem chão. As paredes desapareceram e nessa noite e nas outras que se seguiram chorei. Chorei com o livro agarrado ao peito. Dei asas à loucura contida. Escrevi horas a fio, dei inconscientes passeios nocturnos que me roubavam a sanidade em vez de ma devolverem. O livro deu-me um abrigo que eu nunca tive. Pesquisei, consumi tudo o que encontrava daquele desconhecido autor, com as poucas economias que ia conseguindo juntar. Despedi-me da pessoa mais parecida comigo que alguma vez encontrara e que amei desalmadamente, com um outro livro do mesmo criador e uma nota: “Toma. Vais gostar”. É a única coisa que passados estes anos, ainda nos mantém próximos. Nunca me escreveram ou escreveram sobre mim. Pelo menos que eu saiba. E depois chegou o livro e eu achei que havia sido escrito para mim e sobre mim. Foi o maior tesouro que alguma vez me foi dado. O meu Estranho achou o mesmo sobre ele. Quem imaginara: duas almas solitárias que se julgavam inalcançáveis e do nada são assim manipuladas por um completo desconhecido. É bom saber que não estou realmente só por aqui.

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