Rouge à Lèvres

Arranjei-me para me levares a dançar. Para me encantares com as tuas palavras doces que trauteavam melodias ao luar. Pintei os lábios de vermelho, como tu dizias gostar, para que a noite acabasse com as marcas do nosso amor espalhadas por todo o teu corpo. Para que me dissesses que era a mais bonita do salão, a única que querias rodopiar ao som do piano que ecoava ao fundo. Escolhi o combinado azul por achar que irias reparar nele. Mas a tua pressa não deixava. Havia fogo no teu olhar e em tuas mãos quando me arrancavas a roupa. Havia o desespero de uma fome que eu não conhecia até essa noite. E havia o silêncio. Lembro-me perfeitamente de te sentir longe mesmo estando tu ao meu lado. Eu não era mais do que uns lábios vermelhos que havias levado a dançar para te fazer companhia nessa noite.

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Fotografias de um passado tão presente

Fotografias. Tudo o que me resta de ti. Por todo o lado. Por toda a casa. Nas gavetas fechadas. Nas paredes. Pelo chão.  Para me relembrar que foste a loucura da minha existência e que te perdi por um capricho que hoje já nem lembro. Uma fotografia pode dizer o melhor e o pior de alguém. É impossível fingirmos um sorriso. Um olhar. A felicidade inatingível na nossa realidade. Uma fotografia tortura-nos. Memórias de um tempo que queremos esquecer e relembrar ao mesmo tempo. O despertar do meu dia sem ti a meu lado mas contigo na minha parede. A sirene do nosso coração a dizer: és o meu passado. Quero-te mais do que no meu álbum de recordações. Dois anos não são nada. Há muito a viver. Há muito a descobrir. Cidades a conhecer. Ruas para percorrer. Camas por desfazer. Onde estás tu para que te encontre?

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Desabafos nocturnos

Lisboa deixa-me tão triste. De tanta vida haver nesta cidade, não existe vida alguma. Ninguém se conhece. Ninguém pára. Ninguém repara. Sou eu, parada na rua, de máquina em punho, a olhar os pormenores desta cidade triste que de tanto ter, tanto se perde. Estou triste. Uma tristeza que me faz querer voltar, perdoar, esquecer. Fugir, principalmente fugir. De tanto querer, nada tenho e segundo os outros, tenho tudo. Faz algum sentido? Já nem lágrimas tenho.

Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.
(…)

Helder Moura Pereira in “Mútuo Consentimento

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A Chaga

A cidade está mais deserta do que nunca e tu estás por todo o lado. Em cada lugar por onde passo, em cada divisão da minha casa, em cada rosto desconhecido que cruza com o meu corpo frágil. Voltar é enfrentar a realidade e cada vez que o faço, morre um pouco mais de mim. Deste significado a uma vida sem importância. Deste cor a um quadro que de tão abstracto mal se entendia. Deste sentido ao que julgava perdido e de tão certo te ter, fiquei cega. Sinto a tua falta todos os dias e dava tudo para voltar à sala de cinema abandonada onde uma noite me procuraste.

Eu estava tão perto de ti que sinto frio ao pé dos outros.” 
Paul ÉLUARD

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Memórias de ti deixo-as por cá

Queres que te diga mais o quê? Que te amo? Eu amo-te! Amo-te até às entranhas do meu ser, amo-te tanto que te chego a odiar. Estás satisfeito agora? Claro que não. Jamais ficarás satisfeito. Muito menos saciado de palavras, de jogos que ganhas em segundos, de momentos que sabes ter na mão. E depois ergues-te perante mim com esse olhar de superioridade de quem tem tudo controlado mas corres a refugiar-te nas tuas próprias palavras que não ousas mostrar a alma alguma. Sabes que te menti? Tenho a mala feita.

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Refúgio da alma

Perdi a vontade de escrever. De escrever sobre ti, de escrever em geral. Já não é a primeira vez e provavelmente não será a última. As portas fecharam-se. “Já passaste por isto”, dirias. Sabes bem que nunca me calo mas teme por mim quando eu deixar de escrever. Pouca gente percebe a importância da escrita na vida de algumas pessoas. Imagina o acto de passar para um papel algumas palavras como se fosse uma espécie de confessionário. Um filtro que te livra das impurezas da tua alma, que afasta demónios que te vão consumindo em silêncio. Há coisas que uma boca não consegue dizer. Já devias saber, tu melhor que ninguém.

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