Cão sem trela

Já te aconteceu estar deitado na tua cama e estar tudo tão silencioso que consegues ouvir o teu próprio coração? A mim acontece-me vezes demais, muitas vezes motivado por insónias que vão pernoitando cá por casa. Esta noite voltou-me a acontecer. 05:41. Ainda não durmo. Não sei se luto contra o sono ou se ele irá passar esta noite fora. A cama está fria. Sinto frio, por mais mantas que ponha a meus pés. Abraço-me e tento esconder-me debaixo dos lençóis. Procuro um som que seja proveniente de qualquer divisão que não o meu quarto. Nada. O meu coração continua a bombear o sangue das minhas veias, como se fosse mais um dia. Só mais um dia. Mas é o último. Levanto-me e vou até à sala. Dormes profundamente no meu sofá. Quero muito acordar-te, dizer-te que não vás, que te mudes para a minha cama mas deixo-me em silêncio. Talvez seja mais fácil se estiveres longe de mim. Talvez assim as palavras não sequem na minha garganta, gritando para que entendas. És um cão sem trela para te conseguir apanhar, mas que teria acolhido com todo o carinho que o mundo tem para oferecer. 

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Complicar o amor

​Um amor é complicado. Pensamos que vem descomplicar a nossa vida mas na realidade é só assim enquanto não lhe prestamos a real atenção. Depois começamos a ver o que na realidade ele nos exige e aí chegam as escolhas: o que estás disposto a fazer ou a deixar por aquela pessoa? Supostamente são essas escolhas que mostram o teu amor. O amor complica. É tudo o que sei. 

Girar sem cair

Giramos sem sentido numa noite onde somos tomados pelas estrelas. Caímos. Levantamo-nos e voltamos a dançar ao som do vento. Deixo-me cair nos teus braços porque já nada tenho a temer. Rio-me enquanto te vejo a actuar para mim. Estou feliz, estou finalmente em paz. Decido mesmo assim deixar o coração em casa. É só uma noite. Sem compromissos. Só a vontade de sair da rotina. Venho para casa sem beijos que me façam sonhar mas não preciso deles. Foi diferente, foi bom. Deixo-me navegar sem rumo nesta história. Não quero saber o que pode acontecer, quero estar tranquila, viver um dia de cada vez. Passam dias de uma dança que me parece fazer cada vez mais sentido. Contas-me que estávamos destinados. Rio-me. Não acredito há muito tempo nessas coisas. Tu insistes. Dizes-me que tudo foi escrito previamente. A nossa vida toda desenhada num papel, bem direita, pela mesma pessoa. Dizes que o que aconteceu connosco, foi o criador a tentar dar alguma emoção à nossa vida. Não interessa que os nossos caminhos se cruzem há muitos anos. Estava destinado a que eles chocassem só agora.  Começo a pensar sobre o assunto. Talvez não seja de todo descabido. Lembro todas as noites e dias que passei contigo sem que pensássemos um no outro. De todas as noites que brincámos um com o outro só com a palavra amizade a separar-nos. E depois o universo atinge-nos desta forma e do nada, estás tu no meu chão e eu no meu sofá, a partilhar música pela madrugada fora. Não nos tocamos. Não é preciso para sentir a electricidade a percorrer o meu corpo, a minha garganta a secar. Do nada quebras a música: quero muito beijar-te. Não te respondo. Estou perdida em indecisão. Levantas-te e vais para a porta. Consigo ver no teu olhar que queres ficar. Não digo nada. Levo-te à saída e tomas-me num beijo esfomeado, de quem há muito já podia ter tido aquilo. Caio na escuridão. A partir daqui não sei o que pode acontecer.

 

A fuga

Quando era pequenina acordava muitas vezes com o sino a tocar a meio da noite. Era o som de quem ouvia a Natureza a pedir socorro. Toda a gente saía das camas, pegavam nos poucos acessórios capazes de enfrentar o fogo e lá se uniam para travar o vermelho que passava a iluminar a escuridão. Agora já não se ouve o sino a tocar. Mas o cheiro continua presente. O cheiro que invade os teus pulmões, perfuma os nossos cabelos e vai pintando tudo de cinzento à nossa volta. São poucas as pessoas que conhecem a sensação de ter que fugir de algo. Não aquele fugir como quando evitamos alguém. O outro. Aquele que nos obriga a pegar no que mais amamos em poucos minutos e a correr. Um das piores memórias da minha vida é exactamente esse quadro. Uma tarde de filmes de Verão na companhia da Cecília, como tantas vezes fazíamos, e do nada: as chamas. Chamas por todo o lado. Os gritos da tua mãe desesperada. A luta do teu pai contra um fogo descontrolado. O som do helicóptero que te sobrevoa. Pegas nos teus animais porque são família. E corres. Ou tentas correr porque nestas alturas a força falha. Já perdi a conta às vezes em que abria a janela para não ver mais o verde que me circundava habitualmente. Aquele cheiro a Natureza que não se pode sentir numa cidade. A minha vila era privilegiada neste aspecto: o verde. O verde por todo o lado, a perder de vista. Diziam que era a maior floresta de pinheiro bravo da Europa. Depois o fogo chegou e o verde deu lugar ao negro. A Natureza soube renascer para novamente perder uma batalha atrás da outra. Hoje o fogo voltou. E as pessoas voltaram a sair das suas camas. Desta vez não para ajudar mas sim para fugir.

Sobre a desilusão em meus lábios

Decidi lançar-me no escuro e tentar a sorte com o desconhecido. Dancei em conversas sem rosto, em noites longas de reconhecimento. Eu estava em vantagem, conhecia o teu olhar e os sorrisos que arrancavas da pequena multidão feminina que te seguida de lés-a-lés para te ouvir tocar. Com a ajuda de uma brisa de coragem dei um passo em frente, em tua direcção. Não quis saber das evidentes diferenças entre nós pois dei por mim a achar que os erros antigos passavam por aí. Tu falavas sem me ver, cativando-me aos poucos, sem pressas, sem demoras. Um dia quiseste mais e estacionaste o carro à minha porta. Bateste o pé e disseste-me: se tu existes, vem ter comigo. Com um sorriso rasgado abri-te a porta da minha alma e dei-te a beber os poemas do meu peito. Levaste-me a ver uma lua escondida pelas nuvens, naquela que dizias ser a melhor vista da cidade, e depois dessa noite, teu corpo foi ficando na minha cama para a ternura das madrugadas seguintes. Não sei se te foste com a noite ou com a luz do dia. Só sei que te perdi com a mesma velocidade com que te encontrei.

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Amantes humanos

Conheci-te depois de julgar que já nada havia a conhecer aqui. Éramos amantes constantemente insatisfeitos que gastavam horas a tentar saciar uma fome que não sabíamos explicar. O teu toque queimava a minha pele que ardia sobre o calor dos teus beijos, enquanto as minhas mãos se perdiam a delinear o teu corpo esculpido no que parecia ser pedra. Contigo vivia um presente sem passado ou futuro. Não sabíamos se era amor ou uma mútua compreensão das necessidades um do outro. Nunca precisámos falar sobre isso. A noite era nossa quando o dia nos fugia, sem amarras, sem pressões. Como sopro de um breve instante, somos levados a crer que se calhar as coisas não têm sempre que seguir o roteiro típico do coração. Nem tudo tem que ser um plano pré-definido de como vamos querer que a nossa vida seja. O tempo, ou o destino, acabará por tomar algumas decisões por nós, depois de muito as adiarmos. Foi exactamente assim que descobri que éramos tão humanos quanto os que nos circundavam. A paixão surge de forma relativamente simples. Primeiro, vem o apego. O hábito. E eu habituei-me a gostar de te ter nos meus braços. Depois, dás-te conta que um sorriso, apenas um maldito sorriso que vês na cara da outra pessoa, acende uma cascata incompreensível de emoções no teu corpo.  E eu sabia que o formigueiro que sentia depois de um beijo teu dava um novo sentido ao teu toque e eu dava por mim a querer-te trancado numa sala comigo para que o teu sorriso, os teus beijos ou o calor da tua pele fossem meus durante horas. Mas as histórias que contam sobre os amantes raramente terminam com finais felizes e, quando achamos que uma pessoa não pode simplesmente desaparecer de um dia para o outro, aprendemos que simplesmente há muito que não estávamos no mesmo mundo que ela. Hoje vi-te e esqueci-me de que te tinha esquecido.

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Anda

Julgas que te deixei mas tudo em mim ainda te pertence. O teu abraço era o único que me acalmava, que realmente o fazia e há quanto tempo não o tenho? Num antes, quando éramos um, podíamos estar horas em silêncio, bastávamos nós dois e o tempo passava sem que déssemos conta. Ninguém nos julgava porque não havia ninguém. Pelo menos fixo. Depois, quando apareciam, escrevia-te porque em palavras eras apenas meu. Imaginava a tua varanda e nós, perdidos, a olhar  a noite que se estendia a partir de tua casa. Também tu me inspiravas mas nome tinhas só um: Estranho. Atravessa a rua esta noite, estarei à tua espera.