O Homem Duplicado

Deixa-me ser honesta uma última vez contigo. Depois disto passamos os dois a jogar o mesmo jogo. Tiveste-me na mão durante os últimos meses. Não penses que fui tão inocente quanto aquilo que imaginaste. Estive sempre consciente da dança que dançámos e de que poderia ser o elemento mais frágil desta equação. Isso foi também que toda a gente à nossa volta pensou: vais sair magoada. Já me senti como gata ferida nos teus braços, é verdade. Mas existem muitas variáveis passadas que fizeram de mim alguém que cura rápido e que acaba por cima. Agora sobre tu e eu: podia ter dado certo. Podias ter encontrado paz assim como eu julguei achar a minha. Podíamo-nos ter completado com facilidade ao final do dia, entre gargalhadas que existiriam à velocidade da luz. Ainda sentes a tua mão na minha enquanto adormeces? Eu ainda sinto o teu calor contra o meu corpo, isso é fácil de imaginar. Mas sinto falta do teu corpo e não só da sensação que ele deixava. Os nossos beijos foram fogo em noites frias de inverno que nos aqueciam pela madrugada fora. Sempre quis poder chegar perto de ti e surpreender-te com um beijo que te fizesse pedir por mais. Acho que sabes a única vez em que me deixaste faze-lo. Não foi assim há tanto tempo.  Não te menti: sempre gostei de te ver a sorrir mesmo que o odiasses fazer. Porque quando sorrias o que te tornava belo era a forma como o teu rosto se iluminava e enchias-me de amor por saber que esse sentimento fora por mim provocado. O meu ponto fraco contigo sempre foi o teu perfume. Um perfume que preenchia os meus pulmões, que me abraçava entre beijos que não me davas, que permanecia quando tu há muito já havias partido. Agora deixa-me falar-te sobre ela: sempre soube quem ela era. Sempre soube onde ela morava e que quando te viam naquela rua era a ela quem tu aquecias. Tentei abafar as vozes que me vinham contar as tuas aventuras. Eu sabia do que estava a acontecer, a minha posição foi simplesmente ignorar. Aos cabelos? Eu sabia. Deves estar a perguntar-te:  então porque não foste embora? Porque tenho um hábito terrível de acreditar que as pessoas podem mudar. A parte má de as pessoas te amarem, é que tens olhos e ouvidos em todo o lado. Repetia para mim: ele é tão livre quanto eu. Depois quando dava conta que o coração começava a mandar mais que o cérebro, desaparecia até os ciúmes desaparecerem comigo. Acho que nunca me tinha tentado enganar tanto por alguém.  Sei que não foi só ela também. Atenção. Sabia dos teus passeios noturnos também.  Sabia de quando dizias que ias dormir mas na realidade não o fazias. Mas isso já nada teve a ver com os meus amigos. Foi desmazelo teu. Tornaste-te confiante demais comigo. Achaste que estava tão cega de amor que por ti tudo. Tal como O Homem Duplicado, percebi tudo antes de tu mesmo teres consciência disso. Não te culpo de nada. Não foi a primeira vez que mo fizeram mas foi a primeira vez que tanto me mentiram para me manterem presa a uma história que tu dizes querer mas pela qual não és capaz de abandonar os teus mais efémeros desejos. Tenho más notícias para ti: dificilmente as pessoas mudam. E então voltas a repetir: porquê é que ela não vai embora? Porque na verdade prezo a tua companhia e sei extrair dela o que preciso em outra pessoa. Gosto de ti. Só não gosto da pessoa em que te tornas. Não sou tão fantástica quanto tu achas. Soubeste foi jogar a última cartada nas últimas 24h que estipulei para este nosso jogo. Ganhaste mais algumas mas a minha vida continua para além de ti. Simplesmente só já não fico em minha casa à tua espera.