Lisboa Gaiata

Se o vento o amor apregoa,
Nesse bairro lá de Lisboa,
Rodam as saias sem parar
Das varinas junto ao mar.

Sobre as lágrimas derramadas
De quem o mar tudo levou,
Ficaram lá sete colinas,
De um tempo que passou.

Lisboa, bela cidade,
Por ela cantam o amor,
Num beijo terno de saudade;
De quem por ela tudo deixou.

Soam as guitarras pela calçada,
Num Fado de prato e dor,
Alheio à luz que ficou,
Abraço de quem se enamorou.

Sobre o Tejo as caravelas,
Memórias de quem já partiu.
Em terra a coragem,
De uma cidade que resistiu.

As esquinas suspiram seu nome,
As ruas dançam seu esplendor,
Para que a manhã nasça gaiata,
Abençoada por seu calor.

Música e Letra: Adriana Couto

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Noites Claras

Adoro a forma como o cheiro a tabaco se entranha na tua barba de alguns dias. Como o calor das tuas mãos aquece o meu corpo na ausência de luz. Como os teus olhos negros me olham com um desejo silencioso perante a multidão que nos rodeia. Como me abraças enquanto dormimos, como me contas o teu dia enquanto o dia vai nascendo lá fora. Afasta-te de mim enquanto ainda não dói.

O Homem Duplicado

Deixa-me ser honesta uma última vez contigo. Depois disto passamos os dois a jogar o mesmo jogo. Tiveste-me na mão durante os últimos meses. Não penses que fui tão inocente quanto aquilo que imaginaste. Estive sempre consciente da dança que dançámos e de que poderia ser o elemento mais frágil desta equação. Isso foi também que toda a gente à nossa volta pensou: vais sair magoada. Já me senti como gata ferida nos teus braços, é verdade. Mas existem muitas variáveis passadas que fizeram de mim alguém que cura rápido e que acaba por cima. Agora sobre tu e eu: podia ter dado certo. Podias ter encontrado paz assim como eu julguei achar a minha. Podíamo-nos ter completado com facilidade ao final do dia, entre gargalhadas que existiriam à velocidade da luz. Ainda sentes a tua mão na minha enquanto adormeces? Eu ainda sinto o teu calor contra o meu corpo, isso é fácil de imaginar. Mas sinto falta do teu corpo e não só da sensação que ele deixava. Os nossos beijos foram fogo em noites frias de inverno que nos aqueciam pela madrugada fora. Sempre quis poder chegar perto de ti e surpreender-te com um beijo que te fizesse pedir por mais. Acho que sabes a única vez em que me deixaste faze-lo. Não foi assim há tanto tempo.  Não te menti: sempre gostei de te ver a sorrir mesmo que o odiasses fazer. Porque quando sorrias o que te tornava belo era a forma como o teu rosto se iluminava e enchias-me de amor por saber que esse sentimento fora por mim provocado. O meu ponto fraco contigo sempre foi o teu perfume. Um perfume que preenchia os meus pulmões, que me abraçava entre beijos que não me davas, que permanecia quando tu há muito já havias partido. Agora deixa-me falar-te sobre ela: sempre soube quem ela era. Sempre soube onde ela morava e que quando te viam naquela rua era a ela quem tu aquecias. Tentei abafar as vozes que me vinham contar as tuas aventuras. Eu sabia do que estava a acontecer, a minha posição foi simplesmente ignorar. Aos cabelos? Eu sabia. Deves estar a perguntar-te:  então porque não foste embora? Porque tenho um hábito terrível de acreditar que as pessoas podem mudar. A parte má de as pessoas te amarem, é que tens olhos e ouvidos em todo o lado. Repetia para mim: ele é tão livre quanto eu. Depois quando dava conta que o coração começava a mandar mais que o cérebro, desaparecia até os ciúmes desaparecerem comigo. Acho que nunca me tinha tentado enganar tanto por alguém.  Sei que não foi só ela também. Atenção. Sabia dos teus passeios noturnos também.  Sabia de quando dizias que ias dormir mas na realidade não o fazias. Mas isso já nada teve a ver com os meus amigos. Foi desmazelo teu. Tornaste-te confiante demais comigo. Achaste que estava tão cega de amor que por ti tudo. Tal como O Homem Duplicado, percebi tudo antes de tu mesmo teres consciência disso. Não te culpo de nada. Não foi a primeira vez que mo fizeram mas foi a primeira vez que tanto me mentiram para me manterem presa a uma história que tu dizes querer mas pela qual não és capaz de abandonar os teus mais efémeros desejos. Tenho más notícias para ti: dificilmente as pessoas mudam. E então voltas a repetir: porquê é que ela não vai embora? Porque na verdade prezo a tua companhia e sei extrair dela o que preciso em outra pessoa. Gosto de ti. Só não gosto da pessoa em que te tornas. Não sou tão fantástica quanto tu achas. Soubeste foi jogar a última cartada nas últimas 24h que estipulei para este nosso jogo. Ganhaste mais algumas mas a minha vida continua para além de ti. Simplesmente só já não fico em minha casa à tua espera.

Cão sem trela

Já te aconteceu estar deitado na tua cama e estar tudo tão silencioso que consegues ouvir o teu próprio coração? A mim acontece-me vezes demais, muitas vezes motivado por insónias que vão pernoitando cá por casa. Esta noite voltou-me a acontecer. 05:41. Ainda não durmo. Não sei se luto contra o sono ou se ele irá passar esta noite fora. A cama está fria. Sinto frio, por mais mantas que ponha a meus pés. Abraço-me e tento esconder-me debaixo dos lençóis. Procuro um som que seja proveniente de qualquer divisão que não o meu quarto. Nada. O meu coração continua a bombear o sangue das minhas veias, como se fosse mais um dia. Só mais um dia. Mas é o último. Levanto-me e vou até à sala. Dormes profundamente no meu sofá. Quero muito acordar-te, dizer-te que não vás, que te mudes para a minha cama mas deixo-me em silêncio. Talvez seja mais fácil se estiveres longe de mim. Talvez assim as palavras não sequem na minha garganta, gritando para que entendas. És um cão sem trela para te conseguir apanhar, mas que teria acolhido com todo o carinho que o mundo tem para oferecer. 

Complicar o amor

​Um amor é complicado. Pensamos que vem descomplicar a nossa vida mas na realidade é só assim enquanto não lhe prestamos a real atenção. Depois começamos a ver o que na realidade ele nos exige e aí chegam as escolhas: o que estás disposto a fazer ou a deixar por aquela pessoa? Supostamente são essas escolhas que mostram o teu amor. O amor complica. É tudo o que sei. 

Girar sem cair

Giramos sem sentido numa noite onde somos tomados pelas estrelas. Caímos. Levantamo-nos e voltamos a dançar ao som do vento. Deixo-me cair nos teus braços porque já nada tenho a temer. Rio-me enquanto te vejo a actuar para mim. Estou feliz, estou finalmente em paz. Decido mesmo assim deixar o coração em casa. É só uma noite. Sem compromissos. Só a vontade de sair da rotina. Venho para casa sem beijos que me façam sonhar mas não preciso deles. Foi diferente, foi bom. Deixo-me navegar sem rumo nesta história. Não quero saber o que pode acontecer, quero estar tranquila, viver um dia de cada vez. Passam dias de uma dança que me parece fazer cada vez mais sentido. Contas-me que estávamos destinados. Rio-me. Não acredito há muito tempo nessas coisas. Tu insistes. Dizes-me que tudo foi escrito previamente. A nossa vida toda desenhada num papel, bem direita, pela mesma pessoa. Dizes que o que aconteceu connosco, foi o criador a tentar dar alguma emoção à nossa vida. Não interessa que os nossos caminhos se cruzem há muitos anos. Estava destinado a que eles chocassem só agora.  Começo a pensar sobre o assunto. Talvez não seja de todo descabido. Lembro todas as noites e dias que passei contigo sem que pensássemos um no outro. De todas as noites que brincámos um com o outro só com a palavra amizade a separar-nos. E depois o universo atinge-nos desta forma e do nada, estás tu no meu chão e eu no meu sofá, a partilhar música pela madrugada fora. Não nos tocamos. Não é preciso para sentir a electricidade a percorrer o meu corpo, a minha garganta a secar. Do nada quebras a música: quero muito beijar-te. Não te respondo. Estou perdida em indecisão. Levantas-te e vais para a porta. Consigo ver no teu olhar que queres ficar. Não digo nada. Levo-te à saída e tomas-me num beijo esfomeado, de quem há muito já podia ter tido aquilo. Caio na escuridão. A partir daqui não sei o que pode acontecer.