Até já, Nana.

Todos nós devíamos ter noção que a vida é um ciclo. Nascemos, crescemos, morremos. Infelizmente não é tão fácil de falarmos desse ciclo quando o de alguém que nos é próximo termina. Infelizmente ainda nenhum de nós teve a capacidade de descobrir como alcançar a vida eterna. Também não sei bem se algum de nós o iria querer fazer.
Como é que nos despedimos de alguém que se ama? Como é que nos mentalizamos que não voltamos mais a poder estar com essa pessoa? Um dia está connosco: brincamos, sorrimos, abraçamos ou beijamos. No dia seguinte estamos sujeitos a um telefonema que põe termo a tudo. Mas a vida é assim, não é?

Deixem-me falar-vos da pessoa incrível que hoje partiu. E não digo isto só porque era minha avó. Não. Qualquer pessoa que se tenha cruzado com ela, tenha saído satisfeita da conversa ou não, terá que lhe dar o devido valor: não havia senhora como ela. Nunca conheci pessoa mais corajosa, mais brava ou amorosa, daquelas senhoras que transpira poder quando passa. Daquelas senhoras que sabemos bem, desde logo, serem donas do seu nariz: independentes, capazes de tudo, aventureiras.

Estamos a falar de uma senhora que viveu os seus 89 anos em pleno. Depois de mais de quarenta anos como professora, a servir a sua comunidade fosse na escola ou na sua junta de freguesia, de três filhos criados praticamente sozinha, falo-vos de alguém sem medo de se enfiar num avião. Todas as histórias sobre a Rússia, a Tunísia ou a Venezuela contadas até à exaustão. E nós fascinados a ouvi-la. Uma senhora que adorava passear, que adorava doces e que por causa disso me fazia chatear muito com ela! Que se gabava dos seus dotes de costura e das roupinhas que fazia para os filhos quando eram pequenos. Que aos 89 anos continuava a dar raspanetes aos alunos da minha mãe por estes não serem capazes de decorar a tabuada que ela ainda sabia de cor. Há tantas histórias engraçadas vividas com ela!

Muitos de vós deveis conhece-la apenas no seu papel de educadora. De dama de ferro. Eu tive o prazer de a ter como avó. Tive o prazer de a ouvir perguntar-me pelos meus namorados e de quando lhe dizia que não tinha, ouvi-la com todo a felicidade: “ainda bem, não precisas de um homem para nada.” Ao qual tinha que desde logo discordar e arranjava logo uma guerra lá por casa. Falamos de uma senhora que se orgulhava de­ todos os netos e ainda mais dos seus três bisnetos. Uma senhora que quando eu arranjei um Furão para animal de estimação, para desespero da minha mãe, foi a única que me defendeu porque ela havia já tido meia dúzia deles. A avó que quando me via zangada com os meus pais, se punha à minha frente e dizia: “a tua mãe fala muito mas era igual com a tua idade”. Foi assim que demos o nosso último abraço. Daqueles abraços que vêm na altura certa. Fico muito triste de pensar que não a abracei tanto quanto queria. Em geral nós não abraçamos muito as pessoas de quem gostamos. E não há justificação possível para tal. Façam-no. Não percam essas oportunidades.

Foi muito difícil acompanhar a minha avó na sua maior luta. Nenhuma doença é boa mas o Alzheimer para ela, foi das piores coisas que lhe poderia ter acontecido. É ver uma pessoa cheia de energia, de recordações, de histórias, ir desaparecendo à nossa frente e nós sem conseguir ajudar. Acho que todos os que a conheceram a vão continuar a recordar como mulher fantástica que ela era. Daquelas pessoas com quem pouco nos cruzamos nas nossas vidas mas que ficam presentes para sempre, estejam cá fisicamente ou não. E é assim que para sempre me vou recordar dela, da minha avó, a minha velhota, mesmo que depois disto já não a ouça dizer: “Velhos são os trapos!”.

Obrigada por tudo, Nana.

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