Noites Claras

Adoro a forma como o cheiro a tabaco se entranha na tua barba de alguns dias. Como o calor das tuas mãos aquece o meu corpo na ausência de luz. Como os teus olhos negros me olham com um desejo silencioso perante a multidão que nos rodeia. Como me abraças enquanto dormimos, como me contas o teu dia enquanto o dia vai nascendo lá fora. Afasta-te de mim enquanto ainda não dói.

Anda

Julgas que te deixei mas tudo em mim ainda te pertence. O teu abraço era o único que me acalmava, que realmente o fazia e há quanto tempo não o tenho? Num antes, quando éramos um, podíamos estar horas em silêncio, bastávamos nós dois e o tempo passava sem que déssemos conta. Ninguém nos julgava porque não havia ninguém. Pelo menos fixo. Depois, quando apareciam, escrevia-te porque em palavras eras apenas meu. Imaginava a tua varanda e nós, perdidos, a olhar  a noite que se estendia a partir de tua casa. Também tu me inspiravas mas nome tinhas só um: Estranho. Atravessa a rua esta noite, estarei à tua espera.

A Chuva que cai em mim

Esta janela dá tanto para a minha alma como para a rua onde lentamente a chuva cai, numa cruciante dança que acompanha lágrimas minhas, iluminando o meu rosto em memória de beijos teus que um dia ousaste dar. A água é fria em todo o seu esplendor, enquanto lava meu corpo que por ti sangra durante dias que parecem não mais acabar, onde imagens do teu corpo deitado sobre o dela preenchem o meu lado mais negro, gritando para abafar os teus sons de doce deleite. Queria muito poder apagar-te deste mundo e deste meu fado que me julgou durante meses para depois me queimar com palavras tuas feitas do mais fino ferro talhado  nas brasas da tua mente doente. Dói como nunca antes me tinha doído.

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Caderno Negro

Roubei um caderno de escritos teus, tão negro de capa como de conteúdo, onde escrevias a saudade da saudade que não tinhas mas que fingias ter das palavras que me roubavas, dos lábios que provavas e deste corpo que era só teu. Prometias-me um mundo mas escrevias sobre outro muito diferente daquele que era o meu, onde me embalavas através de doces melodias que fingias ouvir só para eu adormecer. Enquanto nos meus sonhos eu te tinha, tu não sonhavas para não me teres. Deixavas-me na cama fria e fugias para aquele recanto teu, onde escrevias, onde rasgavas o papel que pela manhã queimavas ao mesmo tempo que o teu cigarro se apagava. Acordavas-me com um beijo de desassossego como se acalmasses os teus demónios em pele que definia os teus limites, tão quente mas que em nada derretia lábios teus. Eu a querer mais de ti e tu a viajar com o teu olhar de quem tem o mundo aos seus pés mas não sabe o que fazer com ele, o ar de menino desajeitado em baladas sofridas pelo caminho que se propôs fazer, tanto para se encontrar como para se perder. Gostava que te tivesses perdido mais em mim.

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Meu sacana

Fechei os olhos por momentos. Tornou-se mais fácil de te ver desta forma. De te recordar. O meu coração continua a reagir como da primeira vez que recebi um beijo teu. Vivo, em desassossego como sempre, aguardando uma palavra tua que o console desta solidão. Partiste e não há volta a dar. Não te posso ir buscar. Não te vou implorar por um regresso há muito desmentido.  Tenho pena. Alimentas os meus pequenos demónios. E sabes bem o prazer que isso me dá. Fazes de mim uma louca. Mas uma louca feliz. Despertas na minha escrita um mundo que na reaalidade nunca existe. Sempre enquanto a noite cai. Se me perguntarem quem tu eras, direi que não me passavas de um Estranho. Sabes que é a verdade. Mas um Estranho que me significava muito mais do que muitas pessoas que me rodeiam no dia-a-dia. Há mais histórias sobre ti do que sobre qualquer outra pessoa. Este sítio é teu e de mais ninguém. Julguei em tempos ter pertencido a outro corpo mas agora, enquanto revejo o meu passado, entre linhas, é tudo teu. Só teu. Nem me lembro do que primeiro falei contigo. De ti quero o teu silêncio que me conforta, quero sentir a tua mão a puxar a minha cara na tua direcção. A música a tocar no rádio do teu carro enquanto a chuva continua a cair lá fora. Ainda possuo a árvore que me ofereceste no dia de todos os namorados. E assim sorrio. E assim te digo mais uma boa noite.

Beijar