Lisboa Gaiata

Se o vento o amor apregoa,
Nesse bairro lá de Lisboa,
Rodam as saias sem parar
Das varinas junto ao mar.

Sobre as lágrimas derramadas
De quem o mar tudo levou,
Ficaram lá sete colinas,
De um tempo que passou.

Lisboa, bela cidade,
Por ela cantam o amor,
Num beijo terno de saudade;
De quem por ela tudo deixou.

Soam as guitarras pela calçada,
Num Fado de prato e dor,
Alheio à luz que ficou,
Abraço de quem se enamorou.

Sobre o Tejo as caravelas,
Memórias de quem já partiu.
Em terra a coragem,
De uma cidade que resistiu.

As esquinas suspiram seu nome,
As ruas dançam seu esplendor,
Para que a manhã nasça gaiata,
Abençoada por seu calor.

Música e Letra: Adriana Couto

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Memórias de Artista

Uma terça num qualquer mês, descobri um pequeno alfarrabista colocado atrás do Panteão Nacional. Era dia de feira mas pouco liguei às bancas que se amontoavam pela rua. Entrei sem hesitar na pequena loja. A primeira coisa que me chamou à atenção, foi uma pequena pintura a pastel que estava pendurada numa das paredes. Adorei-a instantaneamente. Namorei-a por muitas semanas até ser vendida. Depois comecei a descobrir as prateleiras. Comecei por uma onde os autores nacionais estavam em maioria. Apaixonei-me pelos exemplares autografados. Descobri, inclusive, um livro que tinha uma carta do autor. Pudesse e tinha levado uma pequena fortuna comigo.

Voltei em qualquer outro dia ao mesmo alfarrabista com uma amiga. Ela mostrou-se tão entusiasmada quanto eu. Explorámos as prateleiras durante mais de uma hora e isso chamou à atenção de um senhor que se encontrava a ver livros também. Falou connosco. Aconselhou-nos alguns livros. Tivemos uma fantástica discussão sobre alguns autores. Era um senhor com quem poderíamos ter conversado durante horas.
Discretamente, o Sr. Eduardo Martinho, dono da loja, aproximou-se de nós e perguntou-nos: “Sabem quem é aquele senhor?” Nós dissemos que não. Puxou então de um livro e mostrou-nos uma gravura. Era fantástica. Por baixo, a identificação apontava: Raúl Perez. “É ele”, disse-nos. Foi um momento de ouro.
Ficámos por mais uma hora a ver tanto com o Sr. Eduardo como com o Sr. Raúl Perez mais alguns exemplares. Eu consegui o meu “As  Duas Máscaras” de E. Schwalbach dedicado a Júlio Dantas e carimbado pela biblioteca privada do mesmo. Senti-me rica, naquele momento.
Aconteceu mais um momento engraçado naquela mesma manhã. O Sr. Raúl mostrava-nos um livro quando, de repente, uma senhora entra na loja e lho tira rapidamente das mãos. Correu, praticamente, para a caixa com ele e levou-o dali. Foi a vez do Sr. Raúl Perez se explicar: “É uma crítica muito conhecida”. Viríamos a descobrir que se tratava de Maria João Fernandes.
Pouco tempo depois saímos, finalmente. E como duas adolescentes saímos com um sorriso enorme na cara. Como um pequeno lugar poderia dar-nos tanto prazer numa única manhã.

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alfarrabista

Lisboa

Minha cidade. Sinto falta da tua luz. Do teu movimento. Das tuas ruas que transpiram história em qualquer ponto da cidade. Das vistas que me proporcionavas e dos pôres-do-Sol. De ir a uma das tuas casas de pasto e das rivalidades amigáveis, quase diárias, por eu ser do Norte. Sinto falta da minha casa. Dos meus cantinhos. Dos meus refúgios. De inspirar profundamete no Cais das Colunas e deixar que o vento levasse meus sonhos consigo. Sinto falta das tuas ruas apinhadas de gente, por onde passeava sozinha e me sentia realmente feliz. Em paz. Da independência que me deste a conhecer. Dos teus miradouros, espalhados por toda a parte. Das bairristas de Alfama, sempre simpáticas, do orgulho que me davam a conhecer por viverem ali. Sinto falta dos Santos. Dos arraiais a toda a hora que duravam até às tantas. Dizem que os alfacinhas não morrem de amores por desconhecidos mas sempre julguei isso mentira. Afáveis, simpáticos, prestáveis. Por vezes com uma pitada de superioridade mas nunca de forma propositada. Sinto falta dos serões no Bairro Alto, no nosso República. Música até às tantas. Bandolins que ecoam na escuridão. Dos teus bairros que me arrastavam para eles a toda a hora. Nunca me senti insegura em Lisboa. Nunca senti como forasteira. Sinto mesmo falta da mistura de culturas. Aqui, onde me encontro, não há nada disso. É quase como uma cápsula do tempo, perdida entre montanhas. Nada se passa e o tempo mal passa. Sinto falta das fotografias tiradas a toda a hora. Sinto falta da praia. Das esplanadas ao final do dia. De andar pelas mesmas ruas e não me fartar, não me cansar. Dos museus intermináveis. Como sou feliz desde que tenha um museu aberto! Do alfarrabista vaidoso do Campo de Santa Clara que visitava em todas as Feiras da Ladra. Da tua vista proporcionada pela varanda do Panteão. Poucos sabem que essa é a melhor viista da cidade. Sinto falta de poder dizer: vivo em Lisboa. Não há um único dia em que não pense em ti. Todos os dias sinto a tua falta e a distância cada vez mais a separar-me de ti. Não há Lisboa sem ele, no entanto. Não há nada em ti sem que o associe. Todas as tuas janelas, a tua calçada, o Tejo que te banha, todos os parques. Ele está lá. Em todas as memórias. E por mais que te ame, pela tua beleza e saudade que transpiras, é ele que procuro nas tuas sombras, aguardando um sorriso que já não tenho, abraços abertos ao medo de regressar. Talvez o querer voltar tenha apenas um motivo: quero voltar a estar com ele.
Lisboa by Adriana Couto