Lisboa Gaiata

Se o vento o amor apregoa,
Nesse bairro lá de Lisboa,
Rodam as saias sem parar
Das varinas junto ao mar.

Sobre as lágrimas derramadas
De quem o mar tudo levou,
Ficaram lá sete colinas,
De um tempo que passou.

Lisboa, bela cidade,
Por ela cantam o amor,
Num beijo terno de saudade;
De quem por ela tudo deixou.

Soam as guitarras pela calçada,
Num Fado de prato e dor,
Alheio à luz que ficou,
Abraço de quem se enamorou.

Sobre o Tejo as caravelas,
Memórias de quem já partiu.
Em terra a coragem,
De uma cidade que resistiu.

As esquinas suspiram seu nome,
As ruas dançam seu esplendor,
Para que a manhã nasça gaiata,
Abençoada por seu calor.

Música e Letra: Adriana Couto

Incêndio das Ruas

“Inclinas-te, silencioso, para o interior do sonho que se enche de imagens ensanguentadas.
As casas onde moraste foram demolidas. Os rostos apagaram-se da memória.
Se olhares a paisagem, cegarás – como cegaram as aves em pleno voo.

A tua ausência ainda pernoita nos escombros de uma fotografia.
Desertos. Fungos, bolores a nascerem nas pálpebras. Aço torcido, ventos.
Ruas em que te segredei:
Leva-me daqui, leva-me para longe desta árvore seca. Para longe desta parede onde escorrem fios de sol…

Mas tu mal entendias a língua em que te segredava.
Vias, apenas, a convulsão de um rosto que se apagava na semiobscuridade da manhã.

Cidade esboroada. Lisboa: Corpos que esperam, jardins onde se cruzam e desaparecem. Ruas, e o rio ao fundo.
Nada mais em redor daquele que caminha ao mesmo tempo que a sua imagem. Ambos destruídos.

Na penumbra do quarto ouvem-se as vozes dos mortos, e dos corpos que se amam.
Mas é inútil lembrares-te dos rostos que tinham ou têm – porque a noite desceu voraz, pesada, eterna, sobre a tua ausência.
Quem terá vivido naquele quarto?
Caído no chão do corredor, um papel escrito – talvez um recado.
Mais alguns passos em direcção a ti, corto os pulsos.
Peço-te:
Protege esta cabeça que se ilumina. Deixa escorrer o sangue sobre os corpos que se amam…

Adormeceste com as mãos no limite da pele, e a adolescência passou enquanto te olhei dormir.
Sobre a mesa de cabeceira, em contraluz, esquecemos o frasco onde tínhamos aprisionado o navio da alma.
Ergo-me de ti e sussurro:
Tira-me do incêndio das ruas. Leva-me no abismo do teu sono, esconde-me na ferrugem nocturna do rio…

E pus-me a pensar que muito tempo depois de nós permanecerá, lá fora, o surdo marulhar da cidade – e este calor que me sobe às mãos, queimando-as, como se ainda as olhasses.”

Al Berto em Dispersos

Silêncio das Ruas

O difícil é esquecer

Dizem que é fácil começar a gostar de alguém, o difícil é acertar na pessoa certa. Gostava de te dizer que ele não era a pessoa certa para ti mas acho que é mais do que mentira se o disser. Vocês eram as peças de puzzle que encaixavam na perfeição, um no outro. Notava-se ao longe como vocês eram especiais. Desde o início, quando vocês se ignoravam e faziam de conta que não havia atracção um pelo outro. Toda a gente o percebia.Sentia inveja quando vos via juntos e lembro-me de pensar: “caramba, isto vai mesmo para casamento”. É engraçado como o destino brinca com as pessoas e dá voltas que ninguém prevê. Chovia imenso quando vieste ter comigo. Acho que nunca te tinha visto tão desfeita. Aliás, lembro-me apenas de uma vez. Tinhas começado a gostar dele mas havia outra pessoa entre a vossa história. Que cliché. Arrepender-se e correr para ti, seria também mais um. Mas desta vez era diferente. “Acabei. Acabei tudo.” Não soubeste explicar o motivo. Aliás, afirmaste que não havia motivo mas mais tarde mudaste a história: “Assim como sabes o exacto momento em que começas a gostar de alguém, também percebes o momento em que o deves deixar. Quando já não há nada de saudável na relação e o amor que vos unia já não é suficiente para vos manter juntos.” Desapareceste durante algum tempo. Acho que nunca tinha visto alguém roubar a alma a outra pessoa. Mas foi o que ele fez contigo. Ficou um vazio em ti. Voltei a ver-te no final do Verão e lembro-me de pensar que aquela, já  não eras tu. “Este foi o pior Verão da minha vida. Ele estava lá, por todo o lado”. Tentei perceber o porquê de não tentares uma aproximação. Disseste-me que iriam voltar ao mesmo. Que quando se apercebessem, estariam na rotina que vos levou a acabar, as mesmas discussões seriam criadas e tudo seria mais um ciclo vicioso. É engraçado. Como se pode amar tanto uma pessoa ao ponto de se ter coragem de a mandar embora? Tentaste manter a tua vida como antes era mas agora, excluindo cada pedaço dele. “Não sou forte o suficiente. Julguei que sim mas não consigo. Esta cidade é demasiado pequena para continuarmos a coexistir.” E de um dia para o outro, voltaste a desaparecer. Deixaste tudo para trás de uma forma tão literal como nunca julguei que serias capaz de o fazer.  Visitei-te algumas vezes na tua nova cidade. Tinhas conhecido alguém. FIquei radiante com a notícia. Precisavas desse alguém para esqueceres a sombra deixada para trás. “Gosto mesmo dele, sabes.” No entanto, sempre que podias, tentavas sondar-me quanto ao teu passado. Lembro-me do dia em que te dei a notícia que ele já estava em outra. O vazio voltou a encher o teu olhar. “Eu sei. Desconfiava que por esta altura assim fosse.” Hoje voltaste à tua cidade e por coincidência ele voltou contigo. Pudesse eu adivinhar e tinha-te trancado em minha casa. Acho que tentaste disfarçar o máximo que conseguiste. Mas nada disse quando vi as tuas lágrimas a cairem enquanto caminhávamos em silêncio pela cidade fora. Como é possível alguém ter tanto poder sobre outra pessoa ao ponto de se tornar a faca mais pontiaguda da sua vida, aquela que abre feridas sempre que lhe bem apetecer? E tudo o que ficou na memória, foi o sorriso que ele trazia na cara. No entanto, amanhã ela já não estará cá para o voltar a ver.

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