Sobre a ilusão de um nós

Quero afogar a dor que teima em não passar, apagar o rasto do teu corpo da minha vida que insiste em pernoitar. Às vezes lavo-me até a pele sangrar por tanto te querer tirar de mim, eliminar as marcas que deixaste pelo meu corpo. As noites matam-me se não me perco por outros. O silêncio ataca-me com as recordações da tua voz. Não durmo para fugir aos pesadelos que tentam entrar. Então deambulo pela casa para que me possa cansar o suficiente para me deixar perder por umas horas. Desejo estar contigo para te mostrar o que hoje sou. Um pequeno vislumbre da culpa que nunca tive, por ela ter estado sempre do teu lado. Sinto tantas saudades de ti como de mim.

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A Chuva que cai em mim

Esta janela dá tanto para a minha alma como para a rua onde lentamente a chuva cai, numa cruciante dança que acompanha lágrimas minhas, iluminando o meu rosto em memória de beijos teus que um dia ousaste dar. A água é fria em todo o seu esplendor, enquanto lava meu corpo que por ti sangra durante dias que parecem não mais acabar, onde imagens do teu corpo deitado sobre o dela preenchem o meu lado mais negro, gritando para abafar os teus sons de doce deleite. Queria muito poder apagar-te deste mundo e deste meu fado que me julgou durante meses para depois me queimar com palavras tuas feitas do mais fino ferro talhado  nas brasas da tua mente doente. Dói como nunca antes me tinha doído.

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Caderno Negro

Roubei um caderno de escritos teus, tão negro de capa como de conteúdo, onde escrevias a saudade da saudade que não tinhas mas que fingias ter das palavras que me roubavas, dos lábios que provavas e deste corpo que era só teu. Prometias-me um mundo mas escrevias sobre outro muito diferente daquele que era o meu, onde me embalavas através de doces melodias que fingias ouvir só para eu adormecer. Enquanto nos meus sonhos eu te tinha, tu não sonhavas para não me teres. Deixavas-me na cama fria e fugias para aquele recanto teu, onde escrevias, onde rasgavas o papel que pela manhã queimavas ao mesmo tempo que o teu cigarro se apagava. Acordavas-me com um beijo de desassossego como se acalmasses os teus demónios em pele que definia os teus limites, tão quente mas que em nada derretia lábios teus. Eu a querer mais de ti e tu a viajar com o teu olhar de quem tem o mundo aos seus pés mas não sabe o que fazer com ele, o ar de menino desajeitado em baladas sofridas pelo caminho que se propôs fazer, tanto para se encontrar como para se perder. Gostava que te tivesses perdido mais em mim.

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Perdi-me na tua varanda

Este mundo não foi feito para pessoas como tu ou eu. Vivemos de limites que nunca ousámos transpor, de linhas que escrevemos um ao lado do outro, de livros que oferecemos para nos manterem acordados pela noite fora. Perdemo-nos nos sofás da tua varanda em conversas tardias e cigarros que se fumavam sozinhos. Desejámo-nos mas depois matámos o desejo antes que o amor aparecesse. Pelo menos tu conseguiste que assim fosse. Eu sou uma causa perdida. Fomos feitos para ser amados. Feitos para conquistar e seduzir mas nunca para amar. O encanto logo se perde e nós não podemos perder esse encanto que nos alimenta. A vida seria tão mais simples para nós se tudo se fosse feito para resumir-se a uns quantos cafés, troca de olhares ou insultos e corpos amados que de manhã se vão embora. Mas nós complicamos. O único momento de sossego é o silêncio que partilhamos na tua varanda. Até as estrelas se deixam ver mas nós continuamos a preferir o nosso anonimato.

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